quinta-feira, 6 de outubro de 2016

AFETO

É uma questão de tato, de sentir mesmo.
Não adianta tentar substituir o toque se o sentimento é da ordem do afeto.
Isso, afeto.
Tornar-se sensível.
Permitir-se para o desconhecido.
Porque todo encontro pressupõe uma reação.
Sem entrega, confiança e, supostamente, medo, nada suporta.
E talvez seja esse o grande desafio.
O medo de suportar, de sustentar, de se tornar vulnerável ao afeto.
Mas é assim que acontece, que emerge, que faz nascer.
Não há felicidade sem riscos,
Pois é nele que incide as diversas possibilidades.
Eu sei que são escolhas,
Mas é o afeto que motiva, que inquieta,
Que nos lança mudo a fora.
Que leva nossos barcos a deriva, por vezes, a um destino.
A um sentido aceitável para tudo isso, tudo que somos.
É uma questão de tato, acredito.
Esse medo de tentar que nos interroga,
Que nos coloca a prova,
Que nos cega,
Que nos impede de olhar o mundo com mais sensibilidade,
Com mais coragem, mais braveza e leveza.
Por isso, insisto.
Quero estar vulnerável a tudo isso.
Posso não ter a oportunidade de ver a flor,
Mas quero ter a oportunidade de escolher ver sem arrancá-la.
Quero me reinventar todos os dias.
Encantar-me por tudo que o afeto proporciona,
E mesmo na vulnerabilidade,
Correr os riscos.
Porque felicidade é isso,

É uma questão de tato, de sentir o não dito.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016


Você é mais um de bilhões de pessoas que existem. Tá, isso eu sei... Mas não somos bilhões de cabeças iguais, que pensam e agem da mesma forma.

Talvez seja essa grande questão que justifica a maneira como as relações humanas estão dispostas atualmente. As pessoas estão acostumadas a olharem o mundo apenas com o seu espelho, definindo o outro de acordo com as suas expectativas e desejos.

Mas expectativas não definem pessoas, definem a sua dificuldade em lidar com suas próprias questões, com as suas faltas e, naturalmente, frustrações.

É difícil conviver com o que as pessoas “acham” sobre nós, porque isso acarreta o perigo das percepções cristalizadas. É insano pensar que você não o que de fato é, mas aquilo que as pessoas “acham” que você seja. Obviamente, isso não é nenhuma novidade, acontece nas diversas relações, mas até que ponto isso importa?

Pois bem, isso muito me importa!

Estamos na era do consumo exacerbado das coisas. Tudo tem valor, pode ser comprado, tem preço, barganha, leilão, disputa. Difícil é aceitar que tudo passa a ser objeto, inclusive nós. As pessoas estão se acostumando com o trágico comportamento de estarem desenfreadamente disponíveis a todo o custo, isto é, sem custo nenhum. Valorizar-se não está na moda, mas ter um valor no mercado, sim.
Se você gosta de alguém isso é garantia de amor para a vida toda. Se não tem afinidade com outra é a pior do mundo, se você aceita uma solicitação de amizade é resultado de um pacto sexual sem fim, como assim? Até que ponto seremos vistos dessa forma?

Sei que cada um tem as suas escolhas, isso é massa, por isso tenho as minhas, entretanto, não sou objeto.  As pessoas não são encontradas em prateleiras, nem muito menos à venda em campanhas promocionais. Eu compro roupa, remédio, perfume, comida, bebida, tênis e um monte de outras coisas, mas não compro pessoas. Sentimentos, valores, princípios seguem a lógica interna, do sujeito, portanto, uma lógica que não é medida [e nem deve] seguir a lógica dos prazeres mundanos.

Essa permissão de se tornar o que os outros “acham” é de uma perversão sem igual. É um direito que cabe a cada um, eu sei, mas aprisiona. Não posso me violentar a ponto de me imaginar uma coisa. A chamada coisificação é um processo violento, avassalador que deslegitima a capacidade e direito de existir do outro.

O que falta, sinceramente, é a vontade de sustentar os sentimentos com mais responsabilidade. Que seja sexo apenas, ou um abraço, mas que seja consciente e autêntico. Deixar-se levar pelo olhar alheio me faz perder a dimensão de estar no mundo, de manter os meus posicionamentos e construir minha história.

E acredito que falta isso hoje em dia. Falta o encantamento das relações [qualquer que seja!], a leveza de escutar uma negativa sem agressividade, de ser abraçado e beijado sem medo de sentimentos contrários, e viver a realidade, o que está posto, de fato.


Sou um entre bilhões, eu sei, mas continuo sendo Eu.

sábado, 25 de julho de 2015

AMIGOS

De repente você percebe que amizade requer muito mais que estar junto.
É compartilhar, dentre muitas coisas, as diferenças e contrastes de opiniões, de valores e de posicionamentos, acima de tudo.
Porque esse tipo de relação, por mais linda que seja, demanda pactos, acordos e atitude recíproca, independente da proporção que se dá para reconhecê-la.
Amizade é mais uma construção do que um desafio. É o conselho que se dá pensando na história do outro, independente da sua história.
É ser apoio para o empoderamento das escolhas que o outro possa fazer, mesmo que sua percepção não siga a mesma lógica.
Amizade é uma forma de escolher a própria família, trazer agregados, formar laços maiores, talvez a maior sensação de pertença.
Porque amizade é amor.
Sentimento puro, entretanto, jamais ingênuo.
Uma parceria para toda a vida, por mais que a distância dite as regras do jogo.
É um compromisso que se firma com base no respeito, no cuidado, sem sentimentos contrários, mas sem projeções nem muito menos perfeições.
Pois nenhuma relação sobrevive de idealizações.
E a amizade, como amor, é sentimento puro dos seres imperfeitos.
É a prática do carinho, mesmo na turbulência do cotidiano.
É a preocupação, o querer bem, a raiva, o estresse daquilo que o outro não entende, mas que prevalece o amor, e a parceria vive, respira, faz cor.
Amizade não é fardo, é tato.
Não é imposição, é sensibilidade, toque, olho no olho, sangue pulsante.
É ritmo, adaptação constante.
Que essa dádiva, dos seres imperfeitos, sobreviva as inconstâncias dos valores e da verdade.
Que não se misture as intenções voláteis,
E que renove, através de pactos, laços e nós, esse sentimento de irmandade.

PERDAS E GANHOS

Somos diferentes. Ponto.
Seria muito mais fácil a compreensão do homem se levássemos em conta apenas essa premissa. Mas saber sobre as idiossincrasias não resume a atuação das pessoas, porque sempre existirão pequenas e outras grandes coisas.
O interessante disso tudo é perceber que, apesar das infinitas construções identitárias, entramos nesse jogo chamado vida para ganhar e perder, isto é, evoluir. Mas, afinal de contas, como podemos definir ganhos e perdas nesta dialética? De fato, existe uma consciência mínima das pessoas a cerca disso?
Estava a pensar sobre os valores vigentes nos dias de hoje... Refiro-me aos valores como os princípios que nós cultivamos e levamos como base da nossa vida, com objetivo de situar-se no mundo, através dos julgamentos, construções e acepções. Na verdade, nossos valores são a forma como olhamos para tudo em nossa volta, o que dar sentido ao que passamos.
Mas, voltando, o que seriam perdas e ganhos?
Perdas e ganhos são os degraus que subimos, vez por vez, mesmo que lentamente, com a finalidade de conquistarmos o que desejamos, mas nunca esquecendo a principal recompensa nesse processo evolutivo: a maturidade e a sabedoria. Penso que nós, seres humanos, ao sermos lançados nas conjunturas relacionais, em um contexto chamado socialização, somos levados a entender sempre as perdas e ganhos como processos traumáticos, como se não tivéssemos ganhos.
Por outro lado, é nosso dever buscarmos as melhores formas para entender as questões da vida, e o aprendizado perpassa o reconhecimento dos insucessos para posterior elaboração dessas vivências.
Hoje, é perceptível a dificuldade e resistência das pessoas em reconhecerem que o perder/ganhar fazem parte do nosso processo evolutivo e moral. Muitas vezes, precisamos enfrentar um momento de desequilíbrio para equilibra-se e essa é a grande dinâmica da vida, pois a perda nem sempre é fracassar, de fato.
Às vezes, devemos perder para ganhar perspectivas e conquistas melhores. Ao internalizarmos isso, é possível a compreensão das etapas e momentos da vida com uma maturidade mais lapidada, capaz de nos proporcionar sabedoria para entender a dimensão das escadas e degraus que subimos na escola da vida.


sábado, 20 de junho de 2015

VIDA: REFLEXÕES E IDIOSSINCRASIAS

Vida.
Começo, meio e fim, a pesar de.
Uma escola.
A liberdade mais sentida por mim, por nós.
Uma oportunidade e milhares de tentativas.
Pois são elas,
São essas infindáveis, incontáveis possibilidades de construção de mim,
Entre o antes e o depois,
Entre tantos intervalos, momentos e avanços.
É o que vai,
É o que vem.
É a ponte,
É o abismo,
É o devir.
É a noção de si,
Do direito, da justiça,
Mesmo que lenta e bandida.
Das palavras não ditas,
Mas sinceras de mim.
Sinceras do outro que existe para nos fazer sentir.
Sentir o dever,
A obrigação,
A responsabilidade de deixar ao outro a garantia de suas escolhas,
Apesar das incertezas do mundo.
É o dever do afeto,
Que se vincula pelos laços,
E também pelos nós.
Do desejo, do instinto do desejo,
Apesar do mundo, de tudo.
Porque eis a palavra,
Que apesar de si tudo formou.
Criou sentimentos,
Deu nomes e sensações,
Emoções e momentos.
Falou-me dos ventos,
De você e dos tempos.
E fez existir,
Sem nada em vão,
Nas linhas escritas em incansáveis formas,
Incontáveis pontos e cores,
Uma multidão.
Que a vida permitiu pelo dever e obrigação.
De oferecer o lápis para convidar a mão
A pintar, bordar, fazer cor.
Preto ou branca,
Vermelho ou amarela,
Anil, talvez,
O que quiser.
Pois com o querer nasceu tudo isso,
Essa escola,
Essa ponte desenhada em aquarela
Que eu, você e pronomes conjugam os versos,
As ladeiras,
Retas,
Subidas,
E descidas.
Com uma vontade incessante de fazer histórias,
Grandes e pequenas,
Simples e complexas,
Épicas e cotidianas,
Que resumem essa liberdade.
Substancialmente, liberdade.
De escolhas, lápis e giz,
Parafraseada a mão,
Qualquer que seja.
Mas que se faça elementar,
Em qualquer consciência,
Uma substancia.
No começo,
No meio,
No fim,
Substancialmente, vida.



sábado, 14 de março de 2015

DIGA SIM ÀS "MANIFESTAÇÕES"

Faz tempo que eu não escrevo nada, aqui no Face! Confesso que esse cyberespaço já foi mais interessante e prazeroso pra mim, e talvez seja esse o grande motivo pela minha suposta ausência. Diante de tantos acontecimentos, entretanto, resolvi compartilhar meus botõezinhos com vocês sobre essas constantes e, acredito, necessárias manifestações sociopolíticas que nos envolvem. Reforma Política, MST, operação Lava Jato, dentre outas acepções, em algum momento nos empolgam a reivindicar os nossos direitos de cidadãos em busca da legibilidade e igualidade parafraseadas por uma ideologia democrática, se assim posso dizer. Por um lado, isso é ótimo, porque nos convoca a assumir papéis importantes no combate as mazelas sociais que assombram nossa "democracia" e nos corresponsabiliza por todos esses vergonhosos acontecimentos que estamos passando (claro, não somos vítimas absolutas do Sistema, afinal de contas, nós somos parte dele, ok?). Por outro, sinto que estamos perdendo a capacidade de nos tornarmos sensíveis a outros tipos de manifestações, consideradas por nós pequenas, simples, talvez nem por vocês reais manifestações, sendo normalmente percebidas como paradigmas naturais da nossa sociedade. Infelizmente, crescemos e nos tornamos gente internalizando que as grandes mudanças são as que de fato importam. A educação, em todos os seus níveis pedagógicos, nos ensina que o aborto, a legalização da maconha, eutanásia, criminalização da homofobia e afins são os temas polêmicos, aqueles que merecem a atenção do povo, que demandam um suposto ideal revolucionário. Somos aliciados a construir essa ideia, de que as mudanças, para serem mudanças, precisam de atos heroicos e grandiosos, deixando de lado as polêmicas da nossa vida cotidiana e que merecem tanta importância quanto. Nasci em um núcleo familiar extremamente patriarcal, constituído de regras, onde o poder sempre foi centralizado na figura paterna. Para mim, o fato de minha mãe, em muitos momentos, não poder decidir sobre determinadas coisas me incomodava, me fazia pensar, construir, desconstruir reflexões a cerca dessa estrutura familiar, me fez assumir posições que antes não me imaginava e essa durável experiência foi polêmica para mim, porque não? Canso de abrir o Face e ler textos deficientes e carentes de uma gramática, ao menos, digna de um português básico, de escutar pessoas e sentir falta da educação que elas deveriam ter de direito, de ver o sofrimento de famílias em não saber lidar com as crises existenciais dos filhos, me canso de ver pais dando de tudo que os filhos precisam, carros, viagens, prazeres exacerbados, sem reconhecer a importância dos limites, do amor, e ainda sim acharem que estão educando-os. Tudo isso são situações do cotidiano brasileiro e TODAS são polêmicas! Precisamos entender qual a importância e o sentido das manifestações em todos os âmbitos. Devemos lutar, nos manifestar diante daquilo que nos torna impotentes e vulneráveis. Sou a favor da manifestação contra o analfabetismo, da manifestação a favor da liberdade de expressão, da manifestação em prol da leitura, da manifestação a favor de famílias que possam gozar dos direitos declarados na Constituição, da manifestação por uma educação igualitária, da manifestação por direitos igualitários de gênero, da manifestação a favor do dialogo entre pais e filhos, da manifestação pelo respeito e o direito de ir e vir, enfim, sou a favor das manifestações que nos tornam mais capazes e sensíveis para superar o que estamos vivendo hoje em dia...

terça-feira, 11 de março de 2014

Suposições sobre o amor





No despertar de mais um dia
Aqueço-me com os raios do sol
Ou a brisa dos ventos.
Não existe escolha para o tempo
Mas existe a escolha de sentir o que se quer.

Com tantas escolhas no mundo
Escolhi ser feliz.
Queria uma verdade inventada,
Queria sentir o brilho no meu olhar
Esperava há tempos esse despertar.

Mas, nas surpresas da vida,
Também escolhi você.
Diamante negro, bruto e precioso.
Animal humano, sagaz e valente.
Indomável em suas atitudes,
Inalcançável em seus pensamentos.

Que por instinto divino me encontrastes
Apenas com um desejo de saciamento.
Mas que no saciar dessa fome
Nasce o amor como alimento
Brota desejos com sentimentos.

E o encontro marca o início de tudo.
A vida presenteia com cores que nunca se viu,
Sentimentos compartilhados em verdade,
Que se tornam especiais e nobres
Como a beleza de uma gota d’água.
A transparência de um amor que reluz...

E o amor renova, se instaura.
Faz lapidar o diamante
Doma o animal
Mostra o que no amor se faz natural:
A transformação de nós mesmos.

O tempo passa e traz consigo desafios,
Que pelas adversidades da vida
Convoca-nos a superá-los.
Sustentar um amor verdadeiro requer desprendimento.
Demanda uma confluência de sentimentos e atitudes.

E com tantas coisas e devaneios nos encontramos,
Assumimos papeis e pela naturalidade das coisas.
Fizemos acordos.
Aceitamos a condição de estar vulneráveis
Um pelo outro com a certeza do que queremos,
Do que sentimentos e do nosso futuro.

As artimanhas do destino são assim.
De onde menos esperamos,
Surgem as surpresas da vida.
Surge a nossa verdadeira felicidade,
Surge o amor que tantos almejam,
Mas que poucos saboreiam.

Amor é flor que não morre.
É sede insaciável
É fome dilacerante
É saudade sempre presente
É um bem querer constante.

Amor é tudo que se vive
É desejo de posse
É medo da perda
É reconhecimento das fraquezas.
Amor é um eterno aprendizado...

Com tantas vivências, seguimos felizes.
Evoluindo pelas estradas da vida,
Jurando promessas diárias,
Alimentadas pelo desejo inenarrável de estarmos juntos.
Um vínculo intenso que existe por causa do nosso amor.

Sendo assim, eu te presenteio.
Passei pelo jardim mais bonito,
Colhendo as mais lindas flores
Para, nesse momento, te dar como resposta do meu amor.
Sei que elas são lindas...

Mas, ainda sim, elas nunca serão o suficiente.
Pois o amor é o sentimento mais belo que existe,
Que traz cores que desconhecemos,
Sensações diárias que aprendemos.
O amor é de natureza divina,
Mas com a certeza de que vivemos.

Que nas andanças da vida
Reconheçamos nossas mudanças,
Valores e aprendizados.
Não nos tornemos sujeitos cansados
Pois o amor é assim:

Uma vontade incessante – e supostamente ilusória - de uma felicidade inesgotável.

Eu estou aqui para viver e ver no que vai dar Essa rotina de sonhos e apagamentos De colocar o medo antes de tudo Antes de resp...